Regressão da Idade Média


Pré-renascimento;Resoluções medievais; Crescimento do comércio; Novos valores burgueses;




     A poesia, quando é extraordinária, numa frase consegue dizer aquilo que as pessoas não conseguem dizer em biblioteca inteiras. Petrarca é um homem que vive no séc. XIV e que influência praticamente toda a poesia seguinte. Uns dos seus versos marcantes são os seguintes:
A paz não tenho, e sem ter motivo vou à guerra:
e temo, e espero, e ardo em fogo, e sou de gelo,
e quero subir ao céu e caio em terra,
e nada abraço e o universo ando a contê-lo.
Ora isto relembra o poema fogo que arde sem se ver, pelo que evidentemente Camões foi buscar muito da sua inspiração a Petrarca. E este jogo com as oposições é típico de uma capacidade já muito evoluída de entender as coisas, porque normalmente a tendência é ver de um lado ou do outro, branco ou preto. O maniqueísmo continua a entrar em quase todas as áreas do pensamento humano atual, pelo que quando um homem aparentemente calmo comete um morticínio, a generalidade da população fica chocada pelo contraste, mas Petrarca já no séc. XIV sabia que de facto a vida é feita de oposições dilacerantes e que dentro da própria pessoa habitam contradições muitas vezes insanáveis.

I

Regressão civilizacional e seu motivo nas invasões bárbaras.


     Este mundo de contradições de que fala Petrarca – que quer a paz, mas vai à guerra, que quer subir ao céu, mas vai para a terra maior parte das vezes, e sente fogo mas sabe que no fundo é de gelo – também se aplica principalmente ao tempo do pré-renascimento italiano que começa a despoletar no séc. XIII e XIV, onde por um lado tem amparo na Idade Média e outro amparo em qualquer coisa que depois se virá a tornar o Renascimento.

Este núcleo de contradições reflecte-se nas extremas diferenças estruturais e de valores entre aquilo que são as sociedades aristocráticas terratenentes em alguns territórios italianos como Siena, Nápoles, Mântua e Milão; e por outro lado as sociedades burguesas cosmopolitas - que serão depois sociedades renascentistas - já a despoletarem noutros territórios como as cidades-estado de Génova, Florença e Veneza.

Ora o motivo desta clara oposição no território italiano reside de alguma maneira no fim do Império Romano a dez séculos atrás do séc. XV, que trouxe consigo mil anos atribulados a que se assistiu a uma regressão histórica inimagináveis no modo de vida e na ausência de cultura. A perda da civilização romana com as suas estradas, o seu urbanismo, o seu modo de vida altamente avançado, sujeitou as pessoas a extraordinárias vicissitudes devido às sucessivas invasões dos bárbaros que foram assolando o território europeu sobretudo entre o séc. V e X, demonstrado no filme Conan e os Bárbaros. As povoações não sabiam para onde se haviam de mudar, pois olhavam para cima e vinham os vikings do norte, olhavam para o lado e vinham os suevos, e de baixo vinham os sarracenos e do outro lado vinham os húngaros.

Tratou-se portanto de tempos de grandes fragilidades e de violência, os bárbaros pilhavam e massacravam as aldeias, violavam e esquartejavam não deixando pedra sobre pedra ou o que na altura seria palha sobre palha. As pessoas eram então dizimadas como ainda hoje acontece em genocídios de África, que infelizmente são anunciados mas que pouco se faz.

Aliás um pensador romano perante as primeiras investidas fatais bárbaras dos loiros Vikings dirige-se aos seus deuses pagãos e chama-lhes a atenção em como o fim dos tempos e a degenerescência já tinham acontecido. Alegava pois que o mundo ter-se-ia transformado de tal maneira ao avesso que as crianças já nasciam com os cabelos brancos, julgando ele tratar-se de casos como Benjamin Button.

No séc. IX ou X não havia qualquer consciência superior ou estrutura que condenasse e consertasse minimamente e o que se passava. As pessoas estavam literalmente entregues a si próprias na sua fragilidade e solidão.


II

Resoluções medievais: Igreja e casta guerreira.

 
     Ora nestes tempos medievais em que cada um olhava por si, surgiram duas estruturas que se impuseram como fórmula de proteção que, apesar de não serem seguramente ideais, eram de facto os serviços mínimos a que as pessoas se podiam acolher. Uma delas que se manteve até hoje foi a Igreja - na altura católica - que manteve uma fina camada de civilização ao redor dos seusnmosteiros erigidos em postos bastantes longínquos relativamente àquilo que eram as estradas romanas para tornam o acesso difícil às ordens bárbaras.

Esses mosteiros que foram surgindo um pouco por todo o território europeu congregavam à sua volta os desvalidos da sorte, que era praticamente toda a gente, e as apoiavam em termos de abrigo e de alimentação, apesar de precária. Também ofereciam uma dimensão curativa das chagas do corpo, pelo qual os monges ainda são hoje famosos, mas ainda mais importante que essas, eram as chagas da alma.

Assim a Igreja surge neste ambiente desnorteante e medonho como a bússola única, a única solução espiritual. Para além disso a vida era tão medonha, reduzida e violênta, que começaram a pensar que seguramente teria de existir qualquer coisa para além da vida miserável e que de alguma maneira justificasse o seu sofrimento: e isso será exatamente a recompensa no céu. É daqui que surge de facto a grande importância da Igreja durante a Idade Média. Um exemplo atual aproximando deste modelo de pensamento são os terroristas muçulmanos que vivem em condições de penúria e que lhes é prometido no céu 70.000 virgens à sua espera.

Por vezes várias pessoas tentam explicar o fanatismo por formas muito complexas, mas basta recuar à Idade Média para se tornar fácil de entender. As condições eram de facto tão más que se julgava que existia obrigatoriamente uma justiça que lhes escapasse e que desse sentido às suas vidas sinistras.

Mas para além deste consolo do clero sob o corpo e espírito, a sua dimensão mais importante que lhe possibilitou e protegeu o seu alto estatuto na sociedade era a capacidade de aquisição e transmissão de saber da cultura antiga reciclada à luz da teologia coeva aos jovens mais prometedores, pois os monges eram dos únicos letrados da altura.

Portanto é fulcral este pensamento, que fica em anarquia durante séculos, e esta organização mínima que a Igreja consegue oferecer. Mas quase tão importante é o surgimento de uma casta guerreira que vai construindo os seus castelos e torres em lugares também afastados das vias de comunicação, e que de alguma maneira vai ter um papel idêntico ao papel pacífico dos mosteiros, mas consegue uma dimensão claramente bélica. Os mosteiros limitavam-se a socorrer - basta pensar na pouca sorte que os monges guerreiros templários tiveram - mas quem tinha a responsabilidade da proteção física contra os ataques das invasões era justamente essa casta guerreira, que se vai solidificando e hierarquizando até transformar aquilo que era um território mais ou menos anárquico numa estrutura feudal.

Era deste modo um sistema de trocas: os cidadãos pagavam os impostos e os guerreiros faziam o serviço de proteção, ficando assim com o direito de todo e mais alguma coisa a proveito da situação extrema de insegurança.

Portanto este sistema hierárquico e rígido vai-se solidificar em volta destes dois pilares: de um lado a Igreja; e do outro a casta guerreira que vai dar origem ao sistema feudal, onde a nobreza significava os mais valentes que vão à guerra em defesa das populações indefesas, e que se vai espalhar por toda a Europa até ao séc. XIV. Mas vai encontrar cada vez mais a oposição no estilo de vida dessas pequenas cidades comerciais, que se vão desenvolvendo à medida que as invasões bárbaras acabam no séc. X. Apenas a partir deste momento onde as únicas estruturas já solidificadas era a Igreja e essa casta guerreira que predominaram até à Idade Média tardia é que foi possível começar a pensar em termos de reconstrução europeia.


III

Império romano: má fama e ausência de legado.




Complementos:

• Duby, Georges. Ano Mil, edições 70, Lisboa, 1980. (capítulo

• Süskind, Patrick. O Perfume, História de um Assassino, edições Presença, Lisboa, 2003.

A Hora do Porco,1993.