Dualidade na arte, no mundo, e no indivíduo


Pré-renascimento: Rupturas e continuidades; Ruptura da Reforma; Capacidade da Europa; Confrontos civilizacionais; Apolo e Dionísio;


     O tempo que vai ser estudado é atravessado por vários processos de rutura. Aliás o começo do Renascimento é já ele próprio uma rutura, embora com linhas de continuidade evidentes com a Idade Média. Os homens do renascimento, principalmente italiano, consideravam-se homens novos, e a própria ideia do renascimento é exatamente isso: um reaparecer depois da morte. Portanto este renascimento implica um desejo de romper com o tempo anterior. Porém não foi exatamente assim mas, de qualquer maneira, houve uma rutura, ou um determinado tipo de ruturas relacionado com o passado da Idade Média.

I


   No séc. XVI existiu uma ruptura que vai dividir a Europa, mas não no sentido plástico ou cultural como foi o renascimento. Ainda hoje a Europa do sul é mal-tratada pela do norte, e esta olha com desprezo para a do sul. Essa divisão ficou ainda mais nítida com o processo da Reforma. Não é por acaso que a religião, que era una até aí, passou a dividir a europa em dois graças à acção de Martin Lutero e dos seus seguidores. Então surge a europa católica e a protestante.

     Esta mudança foi apenas conjuntural, tendo apenas a ver com a circunstância do tempo, para além dos excessos e desmandos como vemos agora na série d'Os Bórgia. No entanto a essência da questão não é de circunstância, mas de dimensões estruturais essenciais muitíssimo mais fortes que acabam por aparecer. E de certa forma insistindo na complexidade do pensamento ocidental, que fez com que fosse dominante em termos mundiais até agora.

     Embora a civilização ocidental esteja declinada, não há duvida que atualmente os países emergentes, tal como a América já o foi no século passado, estão a copiar e mimetizar grande parte das suas ideias e do seu sistema com a qual a civilização ocidental se fundou. O capitalismo, mais nuns países do que noutros, tem uma certa aspiração à igualdade como uma espécie de ideal. No séc. XIX também se considerou que a decadência era inevitável, em acumulação do aparecimento da primeira guerra, mas lá se foi mantendo.

     A civilização ocidental apesar dos seus defeitos tem uma grande vantagem relativamente a outras civilizações: tem uma capacidade de autocrítica, uma capacidade de recuperação de facto arrojada. Assim a Europa apesar de tudo vai aprendendo com os erros. E é uma capacidade praticamente única em termos culturais.

     A sorte ou a tragédia da civilização ocidental remete para uma espécie de esquizofrenia logo à nascença porque vai emergir do confronto de duas tradições antitéticas: por um lado a civilização judaico-cristã, por outro a civilização greco-romana. Ambas pareciam condenadas a não se entenderem. Por um lado o oriente com religiões monoteístas e com cultura iconoclástica de uma dimensão de perfil profundamente abstrato e teórico, cujo cristianismo na sua origem é uma espécie de filho pródigo do judaísmo. E por outro lado a civilização greco-romana do ocidente profundamente ativa e pagã, no sentido em que os deuses tinham uma relação utilitária, o que releva um poder das imagens. Evidentemente que o mundo concreto do dia-a-dia, o tempo presente é o que interessa aos greco-romanos, pelo que os deuses estão construídos à sua imagem e semelhança, enquanto que a religião judaico-cristã faz do conceito de Deus uma ideia completamente inatingível e abstrata.

     Ora desta junção muito estranha de duas entidades incompatíveis vai surgir a civilização ocidental com avanços e recuos de um lado para o outro, com tempos em que a recuperação do modelo vai ser mais importante que outros, em alturas em que os dois de uma maneira de facto estranha se vão agonizando. Essa capacidade de incorporar modelos antitéticos dentro de uma mesma realidade confere-lhe complexidade e um carácter trágico, porque a tragédia é uma fatalidade e principalmente uma impossibilidade de escolha. Portanto este carácter trágico existencial está ligado a uma dualidade da existência humana, por isso é possível esta coexistência de cultura greco-romano e judaico-cristã. Lá está que esse fundo crítico e filosófico dual persiste ainda hoje no pensamento ocidental. Devido a esta dualidade o fanatismo nunca é bem recebido ou tem muito pouco tempo de existência, porque esse processo autocrítico aparece sempre.

II



     Parece algo muito distante, mas de facto é Nietzsche por exemplo que põe um bocadinho o dedo nesta ferida quando, de uma forma simplista, divide não só o modelo civilizacional mas também o pensamento ocidental em duas dimensões distintas a que deu o nome de dois deuses: Apolo e Dionísio. Tem-se respectivamente por um lado a dimensão racional, por outro a dimensão festiva . Isto é evidentemente simplificado demais. Mas esta contradição genética releva os paradigmas da dualidade humana. Divide então o romantismo e realismo, o excesso e a racionalidade, a dialéctica do senhor e do escravo - por isso é que temos uma relação tão difícil porque esse modelo de submissão está sempre a aparecer - a dialéctica paz da burguesa e paz da revolução, a paixão pela razão e a paixão pelo misticismo, a ideia do apelo da barbari e do sentimento de desalento ou de tédio.

     Estas dimensões díspares aplicadas expõem o renascimento como uma afirmação da racionalidade e depois um maneirismo como uma distorção dessa realidade, depois o barroco clássico no século XVII que recupera o racionalismo do renascimento e por fim o barroco-barroco, isto é, um barroco excessivo. Evidencia no séc.XVIII o rocaille como um estilo festivo e excessivo, não racional e imaginativo, e por outro lado o neoclassicismo como a recuperação do clássico. Aclara o romantismo como exaltação da des-razão, da imaginação, do sonho e o realismo como regresso à ideia real, racional, e iluminismo etc.

     Portanto estes dois modelos de pensamento vão acompanhando a história da civilização europeia ao longo dos séculos. Apesar da distinção clara desta dualidade, não quer dizer que no renascimento não houvesse algum irracionalismo, e que no tempo do irracionalismo não houvesse uma vontade enorme pela ordem, trata-se apenas do modelos mais dominante em vigor. Essa dilaceração acontece até em cada indivíduo entre os seus propósitos de racionalidade ou os momentos de apenas sentimento, imaginação ou loucura. Isto acontece então em termos de civilizacionais, em termos pessoais tanto como na dimensão cultural.

     Assim, independentemente dos factores circunstâncias do tempo, de mentalidade e geográfica, a dualidade vai acompanhar de forma muito curiosa esta Europa do sul e esta Europa do norte. Ao contrário do que parece é a Europa do norte a mais imaginativa. A Europa do sul recebe a herança da greco-romana e assim tem o pensamento que assenta melhor na dimensão racional da existência. Já a Europa do norte, com as suas florestas e o seu misticismo, é o local do nascimento do romantismo na Alemanha e é a que inventa os Gothic novels com os seus frankensteins e dráculas. Porém é também que cria o capitalismo na forma em que ele se encontra hoje em dia, nunca podendo ser invenção da Europa do sul. Aliás existem vários livros antigos e clássicos que fazem a ligação eminente entre o protestantismo e o aparecimento do capitalismo. Não é por acaso que o capitalismo corre tão bem na Europa do norte, e tão mal na Europa do sul. E devido aos sistemas de relação, existe muito mais corrupção, quase genética, no sul do que no norte. Em oposição o norte tem uma autodisciplinada, mas por vezes desatina para a loucura como ocorreu na Noruega onde se disparou contra as pessoas.

     A distância entre estes dois mundos, apesar de culturalmente semelhantes, é evidenciada nas imagens que criam. Eis os seguintes exemplos:




Complementos:

Imagens de Introdução
Huyghe, René, Sentido e destino da Arte, 2º vol.