Análise: Bernini, Barroco Italiano

Simon Schama, O Poder da Arte - A História de um Momento Criativo, 2006.




Para além da vertente do naturalismo e do classicismo, Roma vai ter um representante de nível superlativo na área da escultura: Bernini. Num só artista, é concentrado a apologia do poder que a Contra-Reforma tanto procura. Quanto mais esmagadora, excessiva, sensual e manipuladora a obra for, menos o espectador tem vontade de reagir ao quer que seja.

As cerimónias vão de alguma maneira tornarem-se teatros sagrados, na qual as obras de complexidade cenográfica de Bernini vão determinar uma nova orientação da escultura. Agora o arrebatamento torna-se num dos requisitos do barroco, em oposição à serenidade (Pietá de Michelangelo). As suas figuras são de tal modo injectadas de alto nível de energia expressiva, que o espectador colapsa extasiado numa intensa empatia. Este feito plástico não é apenas fruto do movimento formal, mas também é consequente do conteúdo conceptual.

Como tal, a manipulação do espectador conquistada por Bernini relaciona-se, a nível conceptual, com uma dimensão de misticismo, em que a união com a divindade é feita através dos sentidos da dor e do prazer físico; e com uma dimensão de erotismo (Weisbach) que catalisa o reflexo emocional de quem contempla esta forma de representação, possível e concreta, de tentar perceber essa experiência mística que transcende a compreensão (Êxtase de Santa Teresa).

Ora, com uma capacidade destas, não admira que Bernini não tivesse a humildade na lista de qualidades. Assim ele consubstanciava, não apenas o poder simbólico da igreja e de certo modo político, mas sobretudo e absolutamente o poder da criação. De tantas vezes glorificou-se ao mundo, que a mãe teve que pedir formalmente ao Papa para acalmá-lo, pois ele próprio achava-se no papel de Deus (Simon Schama).