Análise: Caravaggio, Barroco Naturalista

Simon Schama, O Poder da Arte - A História de um Momento Criativo, 2006.




No contexto social, quando os artistas eram absolutamente reconhecidos no seu tempo, as suas excentricidades, as suas idiossincrasias - muitas delas passiveis de serem condenadas - são todas perdoadas. Este tipo de registo social vai contribuir para uma certa aura do artista do renascimento. Um desses casos no séc. XVII é Caravaggio - uma figura completamente associal, assassina e, quase que se poderia afirmar, sociopata. Fez de tudo para desagradar, mas tinha sempre altíssimas proteções papais, porque de facto ele era absolutamente estrondoso.

A obra de Caravaggio influencia-se pelo tenebrismo do maneirismo final, e ficou conhecido pela invenção do processo de chiaroscuro. À primeira vista, estas pinturas não correspondem de todo à ideia de naturalismo que hoje temos. Porém, o verdadeiro carácter naturalista de Caravaggio reside na escolha dos modelos profanos do povo e no seu tratamento sem embelezamento, para além de recusar-se a usar o alo nas figuras religiosas. Caravaggio, quando pinta uma Virgem Maria mais profana do que idealizada, não tem medo de representar as unhas sujas e não tem medo da contestação. No contexto religioso da época, estas obras vão servir, num primeiro momento, as estratégias da Contra-Reforma.

Caravaggio, apóstolo das grandes revoluções artísticas, nem faz o esboço preparatório da pintura, e, em contrapartida, o seu conterrâneo Poussin tinha um método extremamente exaustivo. Não admira que Poussin tenha dito ao mundo que Caravaggio terá vindo para destruir a pintura.