Parte 2. Sob o signo de Medusa: da visão e da cegueira


2.1 A História do Sr. I.



mito de medusa


Medusa é uma das três górgonas, mas a única delas que é mortal, pois era originalmente humana. Tem os cabelos feitos de serpentes – símbolo da fealdade – e tem um olhar monstruoso e inumano, que petrifica quem para ela olha. Quem a decapitou foi Perseu com a ajuda dos reflexos no escudo.


Medusa simboliza o poder do observador e simultaneamente um criador involuntário, pois ela cria/transforma indivíduos em estátuas animadas.

É também o símbolo do poder das representações em evitar o pior que há na realidade, pois Medusa torna-se impotente no reflexo. Agora é demonstrado a diferença ente realidade e ilusão.

De certo modo é também o mito da própria imagem, pois o poder do olhar mantem-se quando a cabeça é separada do corpo – quando passa a ser mera imagem do próprio corpo. É assim é possível usar as imagens para aprisionar o verdadeiro poder visual. O poder que não se explica pelo corpo, explica-se pelo olhar.


história do sr. i


O Sr. I era um artista que tornou-se acromático devido a uma contusão resultante de um acidente rodoviário. A nitidez da sua visão aumentou como a de uma águia, mas perdeu a capacidade de ver cores. Uma parte do seu córtex visual danificou-se.

Estágios de agravamento:
1º perde a capacidade de ver a cores e 2º perde a capacidade de imaginar a cores. E depois 3º deixou de ter as memórias antigas a cores. Em 4º deixou de sonhar a cores. Por fim 5º deixou de ter a memória de cores.

A visão acromática é muito diferente de ver um filme a p&b pois…
1º Nós aceitamos esses filmes como representações do mundo, e que 2º podemos olhar ou não conforme os nossos desejos. Já para ele o p&b era a realidade sólida que ele não podia deixar de ver. E 3º estamos a olhar para uma representação a p&b mas com um sistema visual a cores, que continua a pensar e a imaginar a cores.

Tal como não sabemos que cores veem as abelhas, também não podemos (enquanto indivíduos não acromáticos) saber as qualidades percetuais do Sr. I.


cérebro

A retina comparte a informação visual e a envia para o córtex cerebral. Mas até chegar ao destino a informação sofre alterações pelos neurónios.

Córtex cerebral - é uma fina pelicula de 2mm feita de massa cinzenta que cobre o cérebro. A parte dele que trata do processamento visual chama-se córtex visual.

Cérebro – é feito por dois órgãos acoplados chamados de hemisférios direito e esquerdo, que são ligados por uma faixa chamada de corpo caloso. Esses dois hemisférios tem basicamente o mesmo, as mesma áreas com as mesma funções com as mesma células, mas têm especializações diferentes. O hemisfério esquerdo processa a informação de forma analítica e sequencial, tratando principalmente de processos de abstração, categorização, cálculos e verbalização. Pelo contrário o hemisfério direito é instantâneo, intuitivo e simultâneo no processo, focando-se na emoção, imaginação e subjetividade.

Consciência - permite adquirir mais informação e deter um maior poder sobre essa informação. A consciência é a consciência de nós próprios mas antes disso é a consciência do mundo.

Quatro princípios básicos das redes de comunicação cerebral:

  • • Princípio geral da especialização funcional. Coisas diferentes são tratadas em locais diferentes por células diferentes. A informação que parte da retina fragmentada chega ao córtex e vão ser distribuídas por vários locais. A cor é tratado num área, a forma noutra área, etc. E foi nessa área responsável pelo processamento da cor que o SR. I teve o dano. 
  • Não se sabe como a informação desmontada e analisada volta a ser uma perceção unitária.

Princípios dados pela Teoria Multiestados de Semir Zeki:
  • • 1º Princípio de total paralelismo. Milhões de células comunicam através, não um, mas por de centenas e milhares de percursos paralelos. Por isso é que o cérebro é uma floresta de redes, e só uma função usa múltiplas redes.

  • • 2º Princípio de total reciprocidade. A viagem tem o sentido de início nos olhos e fim no córtex, mas também há informação a viajar no sentido inverso. Se a célula A comunica com a célula B, a B comunica com A. No sistema nervoso toda a informação viaja em dois sentidos simultâneos. À medida que a retina envia informação, também ela recebe informação.
  • O caminho entre os olhos e o córtex visual tem uma paragem sensivelmente a meio, e nesse momento sabe-se que 80% da informação que chega aqui está a vir não dos olhos, mas sim do córtex visual, ou seja, está a vir do lado contrário.

  • • 3º Princípio de total simultaneidade. Ao mesmo tempo que uma informação chega à retina, já esta envia mais informação ao córtex.

Nas áreas que analisam a informação do córtex visual, apenas 5% dessa informação partiu dos olhos. Os outros 95% vieram do resto do cérebro.







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Parte 1.3 Olho e a retina: projeção, transmissão e processamento

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