Cubismo: Conhecer para lá do modelo


Antecedentes; Situação Plástica; Fase Cezanniana; Construção Téorica;


Parte 1.

antecedentes

  É um pouco na ressaca das Demoiselles d’Avignon que começa a aventura cubista. Esta obra vai provocar uma série de problemas ao Picasso e a maneira de sair deles é repensar a própria representação – e isso vai ser a aventura cubista. Neste sentido pode-se dizer que é pré-cubista.


Situação Plástica

• FASE CEZANNIANA
Na Fase Cezanniana eles vão entrar em profundidade à herança cezanniana, sendo isso uma espécie de projeto incompleto, embora o cubismo talvez não seria por onde Cézanne quereria ir. 

CONSTRUÇÃO TEÓRICA:

Eles estão a pintar perante o real (=modo cezanniano final). É o sentir a presença das coisas. E apesar de Picasso gostar de temas (Minotauro, Guernica), aqui a força do tema é menos importante para dar lugar ao motivo. Ele neutraliza a razão de ser das coisas para além da sua mera presença física (1) para se confrontar, como quem se quer por num grau zero; (2) e para fazer carregar sobre os motivos a força da sua própria presença.

E é isso que vai fazer com que uma dimensão conceptual apareça. Mas é um conceptualismo do foro retiniano (≠Duchamp), porque é um repensar de um sistema de representação tradicional. É o que ele fala de um conhecer para lá do modelo.

Esse sistema de representação tradicional é a metáfora da Janela de Alberti, esse quadro/janela do pintor virado para o mundo, para um referente. Mas agora a densidade da presença física do motivo é muito maior, que transcende uma mera janela com um olhar único sobre o mundo.


Cézanne quando está a ver os seus motivos, já os viu de centenas de pontos de vista. Portanto há ali uma consciência da presença das coisas. A expressão do conhecimento é nesse sentido: conhecer essa integralidade do mundo.




LINHA FRANCESA POR DETRÁS:

Isto já vem um pouco detrás. Uma das forças do naturalismo foi perceber que a relação do sujeito com esta natureza está carregado de perspetiva. O naturalismo trazia uma forte consciência de subjetividade e uma multiplicidade de perspetivas.

E Monet  também tem consciência disso, e ele traduz essas multiplicidades de vista com diferentes quadros – cada perspetiva, cada instante da película de luz-cor. No início ele vai mudando de lugar, mas depois é a luz que muda. Para ele a perspetiva passa a ser outra porque a iluminação daquela realidade passa a ser outra.

Porém o mundo de Monet é um mundo de reduzir ao mínimo a duração do pintar em função do instante luminoso que interessava agarrar. Já o cubismo e a linha cezanniana tem uma outra densidade, peso nessa relação com o referente, que para Monet seria tortura – ele quer libertar-se do corpo e que focar-se no tecido pictórico. Portanto, existe no cubismo um sentido de duração no estar perante as coisas quase obsessivo, que a dimensão fugidia e transitória do impressionismo não permite. (“quero fazer do impressionismo algo sólido e duradouro como a arte de museus” - Cézanne).



CONSTRUÇÃO FORMAL:

O que é que começa aqui a acontecer? Eles a olham de vários lados e a começam a deformar, a puxar tudo para um mesmo plano do quadro (≠achatar das DMA). É agora que começamos a ter estas arestas externas e internas a abrirem-se (=Cézanne).


Isto vai criar um problema que é a perda da unidade dos pontos de fuga e o fechamento de cada figura, e o lugar das coisas começa a abrir ao espaço, ao fundo - problema que vai impulsionar a fase analítica. 

Em consequência dessa abertura do lugar interno da figura, a luz e a cor vão-se diluindo (=Cézanne).